Publicado em 27.03.2018 - Festas e comemorações - Sem comentários

IOM KIPUREsta é a data mais popular do calendário judaico, quando a maioria dos judeus dedica o dia a ir à sinagoga e a pensar em suas atitudes.

O Dia do Perdão, segundo a tradição, é o último momento para o arrependimento pelas transgressões cometidas no ano que passou. É mais uma chance de mudar o julgamento feito em Rosh haShaná, demonstrar arrependimento e melhorar os relacionamentos. Na época da Torá, o Iom Kipur era comemorado com rituais de expiação. Porém, durante o período do Segundo Templo a data ganhou o significado de introspecção e, assim, sua centralidade no calendário judaico.

Segundo a tradição judaica, apenas as transgressões cometidas pelo homem contra Deus são perdoadas nessa data. Nossa tradição afirma que os erros cometidos pelo homem contra seu semelhante (ofensas, agressões, pecados éticos e morais) não são perdoados nesse dia, a não ser que a busca pela reconciliação e a correção dos erros cometidos tenham sido feitas antes de Iom Kipur. Afinal, os atos do homem continuam sendo dele e as consequências por eles são de sua responsabilidade. Deus somente nos perdoa após sermos perdoados pelo semelhante ofendido. Na fé judaica, Deus nunca pode substituir um ser humano, assim como nenhum ser humano pode substituir Deus. O arrependimento não surge subitamente de um dia para o outro, ou na véspera de Iom Kipur. Originado de um processo interno, o arrependimento pelos pecados cometidos contra o semelhante deve ser um acerto físico e espiritual e, para isso, é necessária a devida restituição à vítima, bem como o recebimento de seu perdão. Se os esforços para conseguir o perdão do outro forem em vão, a tradição judaica relata que se deve tentar ainda por três vezes e, apenas após a terceira tentativa, se a vítima persistir na recusa em conceder o perdão, o culpado se torna inocente e a vítima se torna culpada por negar o pedido.

Liturgia

Avínu Malkênu: é composta por 20 linhas que relembram a avaliação do que foi feito de mal no ano que se passou e o desejo de fazer o melhor no futuro. A partir de Rosh haShaná continua sendo recitado pelos dez dias seguintes – Iamím Noraím – até Iom Kipur.

Col Nidrê: a reza que abre a noite de Iom Kipur gera polêmica, uma vez que anula antecipadamente todas as promessas que serão feitas no ano que está por vir. Porém é necessário compreender que, no judaísmo, as promessas são muito importantes, e essa é uma forma de se relacionar com a imperfeição humana, pois uma vez assumida a imperfeição, podemos nos comprometer, arriscar o esforço e a tentativa, mesmo correndo o risco de falhar. É importante lembrar que essa reza não possui nenhum efeito sobre as promessas feitas a outras pessoas, pois quebrar uma promessa com o outro envolve pedir absolvição ao mesmo. Com tanta polêmica, existem versões da reza que não falam apenas das promessas futuras, como também das passadas.

Neilá: a reza que encerra Iom Kipur é exclusiva desse dia. A tradução literal de “Neilá” é “fechamento”, e se refere simbolicamente ao fechamento das portas do céu, entendido como a “última chance” de preparar melhor a nossa alma e pensamento. O destaque desse serviço é o longo período em que o Aron haCodesh (a arca da Torá) permanece aberto.

A tradição judaica diz: – “Shaarê Teshuvá einám nenaalím leolám” – que significa “Os portões da Teshuvá nunca se fecham no céu”. É importante lembrar que sempre é tempo para um arrependimento sincero.

 

RETORNAR

Retornar à situação na qual foi cometido um erro – no pensamento ou na ação.

APRENDER

Arrepender-se e avaliar a situação com um novo olhar.

RESPONDER

Responder de maneira aprimorada e corrigir a situação.

 

Jejum – Corpo e alma

A principal mitsvá de Iom Kipur é o jejum, que inclui seis regras que se estendem por 25 horas:

  1. não comer;
  2. não beber;
  3. não tomar banho;
  4. não usar sapatos de couro;
  5. não manter relações conjugais;
  6. não passar perfumes e cremes no corpo.

A essência dessas proibições é a dedicação ao cuidado da alma, não do corpo. O jejum pode ser um contrapeso necessário para a vida moderna. Não deve ser um fim em si mesmo, mas uma oportunidade para cada um de nós vivenciarmos Iom Kipur de uma forma mais pessoal e termos a chance de aprender:

  • Compaixão: baseada em empatia, é mais consistente do que se baseada em piedade. Falar sobre o problema da fome do mundo pode ser simples, mas é superficial quando não se sabe de fato o que é fome. Assim, sentir a fome em nosso próprio corpo pode ter um impacto diferente e levar do sentimento à ação.
  • Força de vontade: aparentemente, jejuar é uma ação muito difícil. É a privação de coisas que estão constantemente a nossa volta e que são de fácil acesso. Por isso, em oposição direta à nossa crescente comodidade, o jejum nos mostra a força de vontade e domínio que temos sobre nós mesmos.
  • Penitência: aprendemos a buscar a felicidade acima de tudo, no entanto, o jejum nos ajuda a compreender que, por vezes, o sofrimento pode ser benéfico e nos ajuda a crescer e a nos fortalecer.
  • Desapego material: vivemos em uma sociedade de consumo, e, ao jejuar, afirmamos que não somos dependentes de todos esses bens externos. Se mesmo necessidades básicas, como comer e beber, podem ser suspensas por 25 horas, outras atividades não essenciais podem, sim, ser abandonadas.

Por fim, Iom Kipur é um dia de reflexão para que consigamos implementar estas ações no decorrer de nossas vidas, começando já no próximo ano.

Na busca por um jejum que tenha um porquê e que seja significativo, é importante ter em mente que ainda vivemos em uma sociedade em que muitos estão em jejum permanentemente, não por vontade própria, mas sim por forças das circunstâncias.          É importante lembrarmos sempre da desigualdade social que infelizmente ainda existe. Ao redor do mundo, várias sinagogas aproveitam o período das Grandes Festas para abordar o tema da fome e prestar apoio a quem de fato necessita, pedindo que todos colaborem com alimentos não perecíveis para participar dos serviços religiosos. No Brasil, cerca de 11 milhões de pessoas encontram-se em situação de insegurança alimentar, caracterizada pela ausência de uma alimentação regular saudável. É duro constatar como um país com ampla diversidade alimentar ainda não conseguiu superar esse problema.

 

Conceitos importantes

tzom – jejum                                                  tfilá/ot – prece/s, oração/ões ou reza/s
tkiá bashofar – toque no shofar                     bakashat slichá – pedido de perdão
Beit Haknesset – sinagoga                             bracha/ot – bênção/s, birkat, bênção de…
talit – xale de rezas                                        tshuvá – arrependimento

machzor – livro de rezas, especial para Rosh Hashaná e Iom Kipur